Pediatria: as colheres de cozinha precisam ser banidas na dosagem dos medicamentos

Pediatria: as colheres de cozinha precisam ser banidas na dosagem dos medicamentosWASHINGTON - De acordo com a Academia Americana de Pediatria (American Academy of Pediatrics, AAP), as colheres usadas na cozinha não devem ser utilizadas para a dosagem de medicamentos pediátricos. Em outras palavras, usar colheres de café, chá ou sopa para dosar xaropes ou antibióticos não deve ser uma prática devido ao risco de overdose.

Nos EUA, a cada ano, 70.000 crianças vão para a emergência devido à overdose indesejada de medicamentos.

Sistema métrico

A Academia Americana de Pediatria emitiu uma declaração sobre o assunto em 30 de março de 2015 recomendando que pais, médicos e farmacêuticos usem um sistema métrico para administrar medicamentos líquidos a crianças. O objetivo dessas novas diretrizes é assegurar que as crianças recebam a dose certa. Esta matéria foi feita logo após estudo publicado na revista Pediatrics, em sua edição de abril de 2015.

Dose rapidamente tóxica

O problema com colheres de chá ou de sopa encontradas na cozinha é que elas frequentemente têm vários tamanhos e não são, portanto, precisas para medir o volume de um fármaco. Segundo o Dr. Ian Paul, o pediatra que conduziu o estudo com a sua equipa "Para os bebês e crianças pequenas, um pequeno erro - especialmente se repetido em doses múltiplas - pode rapidamente tornar-se tóxico. Uma colher de sopa é igual em geral a 3 colheres de chá".

Estima-se que nos Estados Unidos a cada ano 70.000 crianças vão para emergência devido a alguma sobre dose não intencional de algum medicamento. No Brasil, estima-se que esse erro compreenda 15% dos erros de administração de medicamentos, segundo um estudo publicado na Revista Brasileira de Enfermagem em Junho de 2011. O problema é que em situações de emergência, os médicos desconhecem que os sintomas podem ser devido a uma overdose de medicamentos, tornando o tratamento mais difícil.

Nos EUA, os erros de dosagem são muitas vezes devidos a uma interpretação errada da medida em mililitro (mL), além do uso errado da medida em colher, por exemplo, uso de colher de sopa ao invés da colher de chá. Nesse caso, a criança pode estar ingerindo uma dose cerca de 3 vezes maior que a recomendada.

A medida em mL

Pesquisas realizadas nos EUA mostram que os medicamentos de venda livre (OTC) na forma líquida são comercializados em embalagens que contêm sua própria medida dosadora. Entretanto, essas embalagens também têm ilustrações com medidas em colher, ao invés de simplesmente usar a medida em mL. Este sistema gera muitas vezes erros por parte da equipe de enfermagem e também dos pais. Um estudo recente mostrou que os erros de medicação são significativamente menos comum entre pais que simplesmente usaram o sistema de medidas em mL, ao invés de utilizar colheres na medição dos medicamentos.

Situação no Brasil

No Brasil, é comum que pais e cuidadores administrem a dose de medicamentos usando colheres. Um estudo realizado em 2000 e publicado na revista científica Pediatria Moderna revelou que a má administração da dose do medicamento pode levar a efeitos adversos. Ainda segundo o estudo, naquela época, alguns poucos medicamentos traziam uma medida precisa na embalagem, mas a maioria recomendava que se usasse uma colher de café, chá, sobremesa ou sopa, que possuem volumes crescentes. Como esses volumes não são padronizados, doses incorretas dos medicamentos podem ser então administradas, gerando efeitos farmacológicos e clínicos diferentes daqueles esperados.

Atualmente, muitos medicamentos em forma líquida (como xaropes para tosse e antibióticos) vêm com medidas dosadoras, como copos graduados em mL e seringas. Entretanto, a prática de se medir os medicamentos em colher ainda continua presente em muitos lugares do país.

Novas recomendações da AAP

Segundo as novas recomendações da AAP para 2015, a administração de medicamentos líquidos para crianças deve sempre ser feita em um sistema métrico em mL que utilize sempre uma linguagem simples e compreensível para o cuidador ou os pais. Além disso, os pediatras devem monitorar a dosagem. Os medicamentos, por sua vez, não devem incluir mais de um sistema de medida, afim de não gerar confusão na hora da administração do medicamento (por exemplo, duplicação da dose, etc). Finalmente, os produtores desses medicamentos devem eliminar da bula e das embalagens qualquer informação de dosagem que não seja em mililitros.

O Dr. Paul conclui o comunicado de imprensa dizendo: "Nós queremos um sistema de medição simples e universal, reconhecido como padrão que permita influenciar a forma como os médicos escrevem as prescrições, na forma como os farmacêuticos dispensam medicamentos líquidos, e na forma como os fabricantes escrevem a bula de instruções sobre o produto".

14 de junho de 2015. Texto escrito por Xavier Gruffat (farmacêutico) e traduzido por Matheus Malta de Sá (farmacêutico). Fonte: comunicado de imprensa da Academia Americana de Pediatria. Revista Brasileira de Enfermagem. Pediatria Moderna. Contribuição para o artigo: Van Nguyen (farmacêutica) e Dr. Patrick Eichenberger (farmacêutico).